Jerry e o Raya de 1993

 Jerry tinha o olhar vago mal explicado. Ele tinha 24 anos em 1993, mas pela postura e a pele grossa, ninguém lhe dava menos de 30. Suas orelhas de abano e a falta de um dos dentes da frente ajudavam também. 

Vindo do interior e décimo oitavo filho (o 5o ainda vivo) de uma família em condições paupérrimas, veio em busca da sobrevivência. Não sabia o que era bola até chegar em Fortaleza, sem os pais saberem, em 1990. Começou a dar seus chutes nos finais de semana a convite dos colegas da obra que ele operava. Conseguiu sobreviver até aí. No ano seguinte, jogando num dos sítios de Tavares, este ficou impressionado!

Tavares, além de treinador, era o dono do recém criado Raya Club. Seu clube sediado às margens da Engenheiro Santana Júnior, no Papicu, estava se tornando conhecido. Ainda com os louros do ingresso para a Liga Estadual, buscava soluções para enfrentar os gigantes. Viu em Jerry uma possibilidade, entregou a camisa 12 e deixou-o pronto para as partidas. A função dele seria marcar gols e o principal jogador da armação do time adversário, mas ainda entrando durante o jogo. Era o substituto perfeito. Não reclamava, sempre que entrava, dava conta.

O ano de 1991 acabou terminando com o rebaixamento do Raya Club. Tavares manteve o time na Divisão de Acesso e começou a destacar Jerry. A função dele agora seria prender o beque adversário e fazer o pivô. Colocou no time titular. 

Poucas palavras trocava com Jerry. Na verdade, eu falava o que era pra fazer, ele escutava com os olhos fixos ao jogo e acenando que sim com a cabeça. No máximo um "urrum" ou "sim, senhor". Eu batia nas costas dele e dizia "vai, então". - Tavares sobre Jerry, em entrevista ao Magazine das Traves (2006).

 O Raya consegue novamente o Acesso em 1992 com a efetiva participação de Jerry. autor de 16 gols e colaborador de outros tantos. 

Ele se mantinha praticamente mudo, o tempo todo. Sua voz era saída de um tom tão baixo e a fraqueza da sua figura lhe davam tanta compaixão que até os jornalistas mais engraçadinhos se mantinham nulos com Jerry. Ele ia aparecendo nos gols e sumindo nas entrevistas. 

Nos treinos, Tavares jura que não conseguia sustentar qualquer conversa com o seu pivô. Em alguns momentos, quando ouvia um "aqui" de Jerry pedindo a bola ao seu colega, era tomado de assalto. 

O assombro mundial veio com o famoso "gol de pião" no estádio da Avenida, frente ao Antônio Sales. 

Jerry recebe, de costas para o gol e um beque na sua fuça, uma bola na altura de seu joelho esquerdo, ela bate nele e fica girando no ar. Ela toca no chão e o giro continua, sobe numa altura menor. 

Enquanto o leitor se dedica ao movimento da pelota, imagine o Jerry fazendo o menor giro possível, fica de frente para o gol e o beque, chuta com a direita com a força que não lhe é possível para o seu metro e meio.

A partir daí, o Raya Club foi ficando no grupo dos 4 que decidiriam a Liga de 1993. Ao final da fase classificatória, encabeçava a tabela com a melhor campanha seguido pelo próprio Antônio Sales e os tradicionais Náutico e Pinho Pessoa. 

Jerry surpreendia pela posição que ocupava, protegia a bola a poucos metros do gol e distribuía os seus passes de costas pro gol. Mesmo tendo o porte físico adverso para lutar com os fortes beques da década de 90, quase sempre conseguia superar.

Na primeira partida do Quadrangular, os comandados de Tavares conseguiram segurar a vitória até os últimos minutos. Mas a lenda Antônio da Silva conseguiu igualar no último instante para o time da rua Pinho Pessoa. 

Ao receber o Náutico no Papicu, o Raya tentava a todo custo abrir a contagem. O placar em zero, incomum para o futebol de travinha, se segurava e mais um empate ia aparecendo naquele histórico Quadrangular de 1993. Antônio Sales tinha empatado com Náutico e Pinho Pessoa, deixando todas as partidas daquela fase sem nenhum vitorioso até então.

São nesse momentos que os homens assumem responsabilidades heróicas e com Jerry se destacando por toda a temporada, todos esperavam por aquele personagem tão único. No último minuto do jogo, ele pressiona a troca de passes na defesa alviverde. Ele conseguiu intervir uma vez, sem sucesso. 

Mas outros dois passes foram trocados e um domínio errado conseguiram recuperar o atacante e o pé esquerdo firme na disputa da bola. Com a sua força inexplicável, sustentou a perna e a bola desviou seu caminho rumo ao gol. Era o gol necessário, a vitória imprescindível, o herói certo. 

Na semana seguinte, o Náutico batia na praia o Pinho Pessoa, deixando o título a um empate para o Raya Club na avenida Antônio Sales. O rival precisava da vitória para mudar quem vestiria as famosas faixas de campeão da Liga Estadual. O que aconteceu foi um jogaço! Uma verdadeira final.

Quando a partida começou, o time da avenida tomou a dianteira com o Eliézer e Expedito tabelando rapidamente. No reinício, um chute de Jerry do meio de campo recolocou a igualdade. E no momento seguinte, Expedito fazia mais um gol para o Antônio Sales. 

Era como se víssemos dois ávidos lutadores de boxe trocando socos. Em dois minutos, Antônio Sales tinha 2-1 no placar. Os 15 minutos seguintes foram momentos que nos deixaram à flor da pele! Todos os chutes batiam nas traves ou passavam muito próximo. E foram muitos chutes! Incontáveis! Quando um ia na cara do gol, a resposta era na mesma moeda. - Sérgio Farias, comentarista da rádio Estadual na época.

 

    


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