A Liga de 1983

O ano de 1982 havia terminado com a surpreendente chegada do América de Aquiraz, derrotando o Mallmann no segundo turno e batendo o Aracati, então campeão, na finalíssima. Apoiado nessa campanha, o time americano se tornava candidato ao título de 83, mesmo com saída de seu melhor jogador, Rui, para o Sporting.

Com o início do certame, já dava para ver que as atenções ficariam divididas entre Mallmann e Aracati novamente. Sporting e Pinho Pessoa teriam o seu protagonismo, é verdade.
Antes, é preciso destacar os outros participantes da Liga de 1983. A volta do Náutico à Liga após o rebaixamento humilhante de 1979. O alviverde praiano substituía o Crato Tênis Clube, rebaixado em 1982. Além do Náutico, as praias fortalezenses tinham no América de Futebol em Fortaleza o seu outro representante. Os vizinhos do Mallmann - Pinho Pessoa e Sporting - completavam a frente da capital na Liga daquele ano.

Aquiraz, arquirrival do então campeão, se fazia presente juntamente com Eusébio. As viagens ao Cariri ficaram reduzidas, que agora contavam com apenas  Juazeiro e Crato Futebol Clube. Região que ano a ano ia perdendo suas forças, com o rebaixamento do Tênis Clube em 82 e da Portuguesa em 81, sem conseguir repor substitutos à altura. Era o início do protagonismo destas equipes nas divisões de acesso.
Camocim fazia a sua terceira participação seguida na Liga. Sobral completava as idas ao norte do estado pelos clubes participantes. Havia também o sempre sólido Caucaia, na Liga desde 1963, mas sem grandes campanhas quando saía do seu Santos Dumont. Campo do alvirrubro metropolitano e conhecido como Poleiro do Galo, terror dos times que o visitavam. Falando em galo, os dois do sertão estavam presente, tanto o alviverde do Quixadá quanto o roxo do Quixeramobim.

A disputa, consolidada em 1967, colocava os dezesseis participantes em dois turnos para completar, os campeões de cada turno se enfrentariam na final. O pior time na pontuação geral seria rebaixado.
Orestes e Miranda comandavam o Aracati. Aldo Soares já era quase um rei no Mallmann. Renato puxava solitariamente um pobre Pinho Pessoa. Além de Rui, Coke colocava o Sporting como uma força considerável.

Num campeonato equilibrado, o turno foi decidido na sua última rodada com o Clássico da Marcondes Pereira entre Sporting e Mallmann na Casa Alvirrubra. Mallmann chegava com um ponto de margem sobre o adversário e o empate de 2 a 2 acabou lhe dando o turno e uma vaga na final ou a possibilidade de ser campeão. Essa possibilidade foi logo se esvaindo à medida que o returno ia se desdobrando com Pinho Pessoa e Aracati disputando os pontos com o Sporting. Enquanto o Mallmann ia perdendo o entusiasmo e se preservando para a partida final. 

Durante o returno, a incapacidade do Crato Futebol Clube em vencer nesta fase acabou lhe custando a sua estadia na Liga para 1984, deixando a cidade órfã e o Cariri com apenas um representante. O Mallmann recebeu um Sporting sedento pela vitória na última rodada, um ponto atrás do Aracati que foi ao Crato fincar o golpe fatal no Futebol Clube. Pinho Pessoa estava na frente de ambos e recebeu um combativo Quixeramobim, a equipe do sertão conseguiu vencer o time da rua. 

Com essa configuração, lá ia o Aracati enfrentar o seu arquirrival em mais uma final da Liga, pela sexta vez em 11 anos. Além da certeza do título de ficar com um dos dois, sequência que vinha desde 1973 e que foi quebrada justamente no ano anterior. O Aracati tinha quatro títulos somados e tentava chegar ao número de conquistas na Liga do seu oponente. Isso, claro, dava a maior motivação para o Mallmann de Aldo Soares e seus irmãos Mallmann, Fernando e Felipe. 

A final seria em dois jogos. Na primeira, o Aracati fez valer o mando de campo e venceu a partida por 2-1. Com isso, o Mallmann precisava vencer na segunda para forçar a prorrogação, quando quem saísse vencedor seria o campeão.

Então, chegamos aquele domingo de julho com o sol brilhando no mar e as arquibancadas do Mítico de Fortaleza abarrotadas. O campo gramado mas com um pouco de areia trazida pelo do mar, com suas traves tradicionalmente marrons e as bandeiras amarelas em cada canto. O Mallmann com aquele seu azul característico e o Aracati ostentando as listras alviverdes. 

A partida se arrastava para um empate e o título do Aracati até seu minuto derradeiro. Aldo Soares, depois de inverter duas vezes a jogada na cabeça do ataque, conseguiu encontrar Fernando em alta velocidade na direita. Este domina com a esquerda e com outro toque coloca exato na perna direita para o chute fatal. Gol. 2-1. A partida ia para a prorrogação.

Logo no início, no embalo da torcida, o aperto na marcação, Felipe consegue roubar a bola de Orestes. Não domina e a bola sobra sozinha numa área esquecida. Dois jogadores vão de encontro à ela: Miranda pelo lado aracatiense e Fernando com todo o entusiasmo de quem acaba de marcar um gol. No "pé de ferro", o central celeste vence e arranca em disparada para a meta. A velocidade é tão grande que parece que ele vai ultrapassar as balizas do campo, mas ele consegue suster o movimento e um leve toque com o lado do pé, coloca a bola na rede. 2-1. Daí em diante, o Mallmann segura as tentativas do Aracati até o fim daquela de uma das mais memoráveis Ligas de todos os tempos. Mallmann campeão de 1983!

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